Viúva de Marielle diz que julgamento dos mandantes no STF pode servir de exemplo contra impunidade
24/02/2026
(Foto: Reprodução) Viúva de Marielle fala em expectativa para julgamento no STF
A vereadora Mônica Benício (Psol), viúva de Marielle Franco, destacou, em entrevista à Globonews, a alta expectativa para o resultado do julgamento dos mandantes do assassinato da vereadora e do motorista Anderson Gomes no Supremo Tribunal Federal (STF). A sessão começa nesta terça-feira (24) e deve acabar na quarta-feira (25) (veja abaixo quem são os réus).
Mônica Benício lembrou que Rivaldo Barbosa, réu no processo e ex-chefe de polícia, foi um dos primeiros a receber a família e dizer que teria rigor nas investigações. O caso só avançou depois que saiu da alçada da Polícia Civil e passou a ser conduzido pela Polícia Federal.
"O Brasil está acostumado a não punir autoridades que cometem crimes, e não são poucas. A gente demorou 5 anos para chegar a uma resposta, prisão dos mandantes da execução, mas chegamos e agora vamos ao julgamento", diz Mônica, atualmente vereadora do Rio (PSOL).
"Foi um crime cometido por agentes do Estado. O Domingos Brazão ainda é conselheiro do Tribunal de Contas do Rio. O Chiquinho perdeu o mandato não por ser o mandante, mas por falta", acrescentou.
Mônica Benício, viúva de Marielle Franco
Gustavo Wanderley/g1
A viúva afirmou que a família acompanha o julgamento com preocupação e expectativa e que, ao longo dos anos, as esperanças "quase se esvaíram".
"O Rivaldo Barbosa era chefe de polícia e foi uma das primeiras autoridades que nos recebeu e nos deu sua palavra. Não é fácil acreditar nas instituições desse país, mas nesse momento nossa expectativa é que o STF nos mostre que as instituições funcionam", afirma.
🔎A vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes foram mortos na noite de 14 de março de 2018, no Centro do Rio de Janeiro. O carro em que eles estavam foi seguido pelos criminosos, que efetuaram disparos contra o veículo da vereadora. Marielle e Anderson morreram na hora. A assessora Fernanda Chaves sobreviveu aos ataques.
Para Mônica, a espera é de uma "condenação exemplar".
"Justamente para que a gente possa dar um recado para a sociedade de que brutalidades como essa não podem acontecer em contexto nenhum. É um momento muito importante para a história do Brasil e a nossa expectativa é de que sirva de exemplo", completa.
O caso será julgado na Primeira Turma da Corte do STF. O ministro Alexandre de Moraes é o relator do processo.
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Quem são os réus no STF
Respondem ao processo:
Chiquinho Brazão (deputado federal) e Domingos Brazão (ex-conselheiro do Tribunal de Contas do Rio) — apontados pela Polícia Federal como mandantes do crime;
Rivaldo Barbosa — delegado, ex-chefe da Polícia Civil do RJ, acusado de ser o mentor intelectual do atentado;
Ronald Paulo Alves Pereira (Major Ronald) — apontado por Ronnie Lessa (preso e condenado como executor do crime) como responsável por monitorar a rotina de Marielle;
Robson Calixto Fonseca (Peixe) — ex-PM e ex-assessor de Domingos Brazão, suspeito de ajudar a ocultar a arma e de integrar o núcleo financeiro e imobiliário do grupo.
A denúncia, já recebida integralmente pela Primeira Turma, inclui crimes de homicídio qualificado, tentativa de homicídio e organização criminosa.
Depoimentos dos réus
Caso Marielle: ministro Moraes pediu que a 1ª turma do STF marque a data do julgamento
Veja o que disseram os réus no interrogatório no STF:
Chiquinho Brazão
Primeiro a ser ouvido, o deputado federal chorou durante a audiência e afirmou ter boa relação com Marielle.
“Marielle sempre foi minha amiga. Era uma pessoa muito amável.”
Chiquinho negou conhecer Ronnie Lessa e disse ter encontrado Macalé — intermediário da “encomenda” do crime — apenas quatro vezes. Afirmou também que nunca tratou de assuntos ligados a milícia.
Domingos Brazão
O conselheiro do TCE do Rio também negou conhecer Lessa e disse que o acusado “se sentiu encurralado” após a delação de Élcio de Queiroz.
Emocionado, afirmou:
“Eu preferia ter morrido no lugar da Marielle. Ele [Lessa] está destruindo a minha família.”
Domingos relatou ter perdido 26 kg desde que foi preso e disse não entender as acusações.
Rivaldo Barbosa
O delegado iniciou seu depoimento dizendo que sua prisão representou “sua morte”.
“Eu fui assassinado. Me enterraram e vou tentar ressuscitar.”
Ele afirmou ser vítima das mentiras de Ronnie Lessa e disse acreditar que Cristiano Girão — e não os irmãos Brazão — teria sido o verdadeiro mandante do crime.
Robson Calixto (Peixe)
O ex-PM negou participação no crime e afirmou que só teve seu nome citado porque acompanhava Domingos Brazão:
“Graças a Deus nunca encontrei Lessa. Eu sou motorista do Domingos.”
A PGR aponta Calixto como responsável por gerir atividades de grilagem e repasse de dinheiro a laranjas para beneficiar o grupo.
A Procuradoria diz que ele monitorou a rotina da vereadora e, no dia do atentado, avisou Macalé sobre o evento que Marielle participaria — informação que teria sido repassada a Ronnie Lessa antes da execução.
Processo pronto
Com todos os interrogatórios concluídos e as diligências complementares finalizadas, Moraes abriu prazo para alegações finais em abril de 2025. Todas as manifestações foram entregues até junho.
Como será o julgamento?
Relator do caso, Alexandre de Moraes, apresenta o relatório, que traz o resumo dos principais passos da investigação.
PGR apresenta a denúncia, o tempo é de uma hora. A manifestação deve ser do vice-procurador-geral, Hindemburgo Chateaubriand;
Cada advogado dos 5 acusados terá 1 hora para apresentar a defesa;
Finalizada essa etapa, começam os votos dos ministros. Relator, Alexandre de Moraes é o primeiro;
Depois, Cristiano Zanin, Cármen Lúcia e, por último, o presidente da Turma, Flávio Dino. A ordem pode mudar se até lá tiver o STF tiver um novo ministro);
Não há limites de tempo para o voto dos ministros.
São necessários 3 votos para condenação
Nos votos, os ministros discutem questões preliminares colocadas pelas defesas, que são temas processuais, como se o STF é ou não competente para o caso.
E se a PGR conseguiu comprovar que cada um dos acusados teve participação ou não nos fatos apurados.
São necessários 3 votos para condenação ou absolvição. Em caso de condenação, os ministros discutem depois o tamanho das penas para cada um, de acordo com a participação nos crimes.
PGR (acusação) e defesas podem ainda recorrer do resultado do julgamento.
A Primeira Turma do STF em imagem de setembro de 2025
Rosinei Coutinho/STF